Las Vegas se consolidou como um dos principais pontos de encontro da indústria de tecnologia. No fim de 2025, a cidade recebeu mais uma edição do AWS re:Invent, evento que a CodeBit acompanhou presencialmente e fez parte de discussões sobre infraestrutura, nuvem, dados e inteligência artificial em escala.
Pouco tempo depois, na primeira semana de janeiro, foi a vez da CES 2026 ocupar a cidade e atrair os olhares do mercado global.
Realizada desde 1967 pela Consumer Technology Association (CTA), a CES (Consumer Electronics Show) atravessou diferentes ciclos da indústria. Começou focada em áudio e vídeo, acompanhou a popularização dos computadores, testemunhou o surgimento dos smartphones, das TVs conectadas, da mobilidade elétrica e, mais recentemente, da inteligência artificial aplicada a produtos e serviços.
A feira sempre antecipou movimentos. Muitas das tecnologias que hoje parecem óbvias passaram primeiro por seus corredores, ainda como protótipos ou apostas incertas.
A CES como radar da indústria desde 1967
Ao longo de quase seis décadas, a CES se firmou como um espaço onde empresas testam narrativas, apresentam conceitos e observam reações do mercado. Nem tudo que aparece ali chega ao consumidor final, mas quase tudo ajuda a entender para onde a indústria está olhando.
Historicamente, a feira se destaca por alguns papéis centrais:
- Apresentar tecnologias ainda em estágio experimental.
- Conectar startups, grandes fabricantes e investidores.
- Servir como vitrine para novas categorias de produtos.
- Antecipar debates que ganharão força nos anos seguintes.
A CES funciona como um retrato do momento tecnológico global. E, olhando para trás, é possível identificar padrões claros entre o que foi exibido e o que, anos depois, se consolidou.
Quando a CES “previu” o futuro
Revisitar edições passadas ajuda a entender de que modo a feira atua como um termômetro de tendências, muitas vezes antes de elas se tornarem consenso.
CES 2010
A disputa entre iOS e Android começava a se intensificar. O Android ganhava espaço com novos fabricantes e operadoras, enquanto tablets e “smartbooks” surgiam como apostas para além do smartphone.
CES 2011
O ano das redes móveis de quarta geração. Anúncios sobre LTE e 4G dominaram a feira, especialmente nos Estados Unidos. No Brasil, o 4G começaria a se materializar pouco depois, com o leilão de frequências em 2012 e as primeiras ativações comerciais entre 2013 e 2014, impulsionadas pela Copa do Mundo.
CES 2012
As smart TVs ainda buscavam seu formato ideal. Integrações diretas com serviços de TV por assinatura e plataformas digitais chamavam atenção em um momento em que streaming ainda não era dominante.
CES 2013
A Nvidia apresentou o Project Shield, marcando sua entrada no hardware próprio. O movimento antecipava a expansão da empresa para além das GPUs tradicionais, algo que se consolidaria nos anos seguintes em IA, automóveis e computação de alto desempenho.
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CES 2014
O streaming começou a ganhar protagonismo. O anúncio de conteúdos em 4K e a presença de plataformas como a Netflix indicavam uma mudança profunda na forma de consumir vídeo, movimento que se intensificaria rapidamente.
De feira de eletrônicos a automotivos
Durante muitos anos, a CES também foi um dos principais palcos para a indústria automotiva. Conceitos de carros elétricos, sistemas de direção assistida, painéis digitais e conectividade veicular ganharam destaque em Las Vegas, muitas vezes antes de chegarem aos salões tradicionais.
A feira ajudou a reposicionar o carro como plataforma tecnológica, integrando:
- Software e conectividade.
- Sensores e automação.
- Experiências digitais dentro do veículo.
- Integração com assistentes e ecossistemas de dados.
Esse protagonismo, no entanto, oscilou ao longo do tempo, refletindo os altos e baixos do setor automotivo global.
CES 2026: IA e robótica ganham protagonismo nas aplicações práticas
A CES 2026 reforçou uma mudança gradual no perfil das inovações apresentadas no evento. Em vez de apostar em conceitos isolados ou demonstrações futuristas, a feira deu mais espaço a aplicações concretas de inteligência artificial, automação e robótica integradas a produtos e serviços reais.
A IA apareceu menos como recurso experimental e mais como camada central de funcionamento. Em diferentes estandes, ela estava presente na forma de assistentes embarcados, sistemas de tomada de decisão, análise em tempo real e interfaces mais naturais entre pessoas e máquinas.
Entre os principais destaques da edição:
- Soluções de IA voltadas à personalização de experiências, automação de tarefas e integração entre dispositivos, reduzindo a dependência de interfaces tradicionais.
- Robôs humanoides e sistemas autônomos, apresentados com maior maturidade técnica, focados em mobilidade, equilíbrio, percepção do ambiente e aplicações em logística, indústria e serviços.
- Plataformas inteligentes, que conectam hardware, software e dados em ecossistemas mais fechados, com forte dependência de nuvem, edge computing e modelos de machine learning.
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A edição de 2026 deixou claro que a inovação, neste momento, está menos na forma dos dispositivos e mais na inteligência que os opera.
Esse deslocamento reforça a ideia de que a IA se tornou a primeira camada de atenção para diferentes setores, como base técnica sobre a qual novos produtos, serviços e experiências começam a ser construídos.
AWS re:Invent e CES no mesmo ciclo de inovação
O re:Invent tem um recorte mais técnico e voltado à infraestrutura, mas costuma antecipar como tecnologias em nuvem, dados e inteligência artificial serão aplicadas em escala.
Muitas das soluções discutidas ali aparecem, semanas depois, na CES, já transformadas em produtos, protótipos e experiências concretas.
Na edição mais recente do re: Invent, três frentes ficaram especialmente claras:
Mobilidade autônoma, com projetos como o robotáxi da Zoox, que evidenciam uma abordagem mais pragmática para veículos sem motorista, focada em ambientes controlados, operação urbana limitada e forte dependência de dados, sensores e IA em tempo real.
Tecnologia aplicada ao esporte, com destaque para soluções usadas na Fórmula 1, em que dados, simulação, machine learning e computação em nuvem são empregados para análise de desempenho, estratégia de corrida e otimização de decisões em frações de segundo.
Sustentabilidade, com iniciativas globais voltadas à gestão da água, eficiência energética e uso responsável de recursos naturais, apoiadas por plataformas de dados, modelos preditivos e infraestrutura escalável.
Quando acontece a CES 2027?
Para quem acompanha o evento de forma recorrente, o calendário da CES já está disponível para os próximos anos:
CES 2027: 6 a 9 de janeiro de 2027
CES 2028: 11 a 14 de janeiro de 2028
CES 2029: 9 a 12 de janeiro de 2029
Essas edições futuras devem continuar refletindo o deslocamento da inovação para camadas de software, IA, automação e integração entre sistemas.
A CES 2026 mostra que o evento segue cumprindo um papel de refletir o estágio real da tecnologia no mundo, com suas prioridades, limites e apostas.
Ao longo dos anos, o foco da feira se ajustou às transformações do mercado e, hoje, se concentra menos em dispositivos isolados e mais em inteligência, integração, automação e aplicações práticas, sinais de um mercado que amadureceu e passou a valorizar execução e escala.
Quase seis décadas depois de sua criação, a CES continua relevante justamente por conseguir se adaptar. Ela acompanha as mudanças da indústria, absorve novos temas e funciona como um ponto de convergência para tendências que já estão se formando.
Não define o futuro sozinha, mas ajuda a torná-lo mais legível.



