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Como a Nvidia se tornou a empresa mais valiosa do mundo

Conheça a trajetória da empresa que começou com GPUs para games e se tornou a potência que mais movimenta a IA em um império trilionário

Postado em 30/01/2026

Leonardo Fróes

A Nvidia tornou-se a empresa mais valiosa do mundo, ultrapassando Microsoft, Apple e todas as gigantes do setor ao superar a marca de 5 trilhões de dólares em valor de mercado.

A empresa nasceu com foco em chips gráficos para PCs e videogames. Três décadas depois, influencia praticamente todos os setores que dependem de computação de alto desempenho.

Esse feito é resultado de uma combinação de pioneirismo técnico, domínio em software, e uma estratégia que, ao mesmo tempo, antecipou e moldou o ciclo atual da inteligência artificial.

Conheça os principais capítulos dessa trajetória e os movimentos que transformaram a Nvidia em um dos maiores impérios tecnológicos da atualidade.

As origens (1993–2005)

Fundada em 1993 por Jensen Huang, Chris Malachowsky e Curtis Priem, a formação da Nvidia está diretamente ligada à percepção de Jensen Huang de que o futuro da computação seria visual. Nos anos 1990, GPUs eram nichos experimentais, mas a Nvidia, à frente de seus concorrentes, apostou que gráficos 3D fariam parte de aplicações de consumo em larga escala.

Entre 1995 e 1999, a empresa criou uma sucessão de chips que alteraram o mercado:

  • NV1 (1995): primeiro chip multimídia vendido em volume.
  • RIVA 128 (1997): aceleração 3D em massa; mais de 1 milhão de unidades vendidas.
  • RIVA TNT (1998): inauguração da arquitetura multitextura.
  • GeForce 256 (1999): introdução do termo GPU e a primeira aceleração gráfica por hardware dedicada.

Com esses produtos, a Nvidia tornou-se padrão para PCs e jogos. Criou alianças com grandes fabricantes, como Dell, Apple e Microsoft e passou ao domínio público (IPO em 1999), obtendo capital para ampliar pesquisa e desenvolvimento.

Nos anos 2000, a empresa dominava o mercado de GPUs para games e se tornava um elemento essencial para consoles e computadores de alto desempenho.

A virada estratégica (2006–2012)

A mudança estrutural da Nvidia ocorreu quando deixou de olhar GPUs apenas como máquinas de renderização e passou a tratá-las como motores de computação paralela, úteis para ciência, pesquisa e, futuramente, IA.

O marco central foi o CUDA, lançado em 2006.

CUDA (sigla para Compute Unified Device Architecture) é uma plataforma/kit de desenvolvimento que permite programar GPUs para tarefas além dos gráficos, inaugurando a era do GPGPU (General-Purpose GPU Computing).

Um conjunto completo de ferramentas: linguagem de programação, bibliotecas, drivers e um ecossistema de software que permite aos desenvolvedores utilizarem o enorme poder paralelo das GPUs para rodar aplicações científicas, simulações e processamento de dados.

O CUDA fez pela Nvidia o que o Windows fez pela Microsoft: criou dependência, padronização e um ecossistema fechado, difícil de abandonar.

Isso gerou dois fenômenos decisivos:

  1. Milhões de desenvolvedores aprenderam e passaram a depender do CUDA, criando software otimizado exclusivamente para hardware Nvidia.
  2. Concorrentes ficaram estruturalmente atrasados, porque não possuíam equivalentes maduros ou amplamente adotados.

Nesse período, foram lançadas as primeiras arquiteturas alinhadas ao novo paradigma: Tesla (2006), Fermi (2010) e Kepler (2012).

O nascimento da IA (2012–2017)

A explosão do deep learning em 2012 com AlexNet (treinado originalmente em GPUs Nvidia) mudou definitivamente o destino da empresa.

De repente, modelos neurais extremamente profundos exigiam poder computacional massivo, milhares de operações paralelas e tecnologia de memória sofisticada. GPUs eram perfeitas para isso.

E não era qualquer GPU: eram as GPUs Nvidia aceleradas pelo CUDA.

Entre 2012 e 2017, a empresa consolidou sua hegemonia ao lançar arquiteturas cada vez mais dedicadas a IA:

  • Maxwell (2014)
  • Pascal (2016): primeiras otimizações profundas para modelos neurais.
  • Volta (2017): estreia dos Tensor Cores, aceleradores específicos para IA.

Além disso, a Nvidia fez movimentos estratégicos que reforçaram sua liderança:

Nesse período, a dependência global já estava cristalizada.
A economia da IA passava pela Nvidia.

A década da aceleração (2018–2025)

De 2018 em diante, a IA saiu do laboratório e entrou no consumo, e a Nvidia se tornou a fornecedora essencial da infraestrutura necessária para esse salto.

Arquiteturas sucessivas elevaram o poder computacional e a explosão da IA generativa em 2022, com o lançamento de ChatGPT, estabelecendo o ponto de virada.

O mundo precisava de data centers gigantes, aceleradores específicos, sistemas integrados e capacidade de treinar modelos bilionários e trilionários.

A Nvidia tinha tudo:

  • Os chips mais avançados (A100, H100, H200, B100).
  • O ecossistema fechado mais poderoso (CUDA + TensorRT + NGC).
  • Um modelo de produto escalável (DGX, GB200, Superchips).
  • Infraestrutura vendida diretamente aos hyperscalers.

Serviços de nuvem globais, como a AWS, padronizaram suas ofertas de IA em hardware Nvidia. Startups de IA (OpenAI, Anthropic, xAI) também.

Para completar, governos e grandes corporações montaram clusters massivos de IA usando GPUs Nvidia como base.

Com isso, a empresa deixou de ser fabricante de chips e passou a prover algo muito maior: o que Jensen Huang chama de "fábricas de IA".

Essa transição levou a companhia ao topo dos mercados financeiros.

O domínio Nvidia

Desenvolvedores aprendem a programar para Nvidia.
Empresas otimizam sistemas inteiros em torno de Nvidia.
Cloud providers constroem datacenters calibrados para Nvidia.
Pesquisadores publicam artigos dependentes de bibliotecas Nvidia.

Migrar para outra plataforma significa reescrever código, retreinar modelos, reprojetar pipelines. Essa dependência é estrutural e é o que mais dificulta a entrada de concorrentes.

Expansão para além dos chips

Hoje, a Nvidia atua em camadas múltiplas da cadeia de valor:

  • Hardware: GPUs, CPUs, DPUs, sistemas integrados.
  • Software: CUDA, drivers, bibliotecas, frameworks de IA, simuladores.
  • Sistemas completos: DGX, HGX, GH200, clusters pré-configurados.
  • Cloud e serviços: Omniverse Cloud, plataformas de simulação, APIs.
  • Ecossistema empresarial: Automotivo, robótica, manufatura, energia, finanças.

A empresa deixou de depender do mercado de games há mais de dez anos.

Hoje seu core business é: IA generativa, data centers e sistemas de automação avançada.

Esse modelo multicamadas é o que permite margens e valuations tão elevados.

A ascensão financeira

A valorização da Nvidia nos mercados é um fenômeno raro na história corporativa.

2023: ultrapassa US$ 1 trilhão.
2024: salta para US$ 3 trilhões.
2025: atinge o recorde de US$ 5,04 trilhões, tornando-se a empresa mais valiosa do planeta.

Alguns elementos explicam esse salto:

  • Demanda explosiva e contínua por IA generativa.
  • Margens superiores às de praticamente todo o setor de hardware.
  • Domínio absoluto em um mercado em hiperexpansão.

O mercado passou a ver a Nvidia como a referência número um, a base para a próxima era computacional.

Os limites da hegemonia

A hegemonia da Nvidia, embora sólida, enfrenta um contexto competitivo mais complexo. A empresa convive com a pressão crescente de concorrentes tradicionais, como AMD e Intel, além de startups chinesas que miram nichos específicos de computação acelerada.

Grandes players de tecnologia, como Google e Meta, também avançam no desenvolvimento de seus próprios aceleradores, enquanto restrições geopolíticas impõem limites ao fornecimento de chips avançados. 

Ainda assim, a Nvidia se move para preservar sua vantagem competitiva. Da mesma forma que ocorreu em fases anteriores de sua história, a Nvidia busca definir o terreno tecnológico antes que os concorrentes alcancem maturidade suficiente para disputar sua liderança.


A ascensão da Nvidia ao topo do mercado mundial é um símbolo do momento histórico em que vivemos.

Em 2025, pela primeira vez, a empresa mais valiosa do mundo não é uma gigante do software ou dos serviços digitais, mas uma fabricante de infraestrutura tecnológica para inteligência artificial. Isso revela uma mudança profunda no eixo de poder da indústria.

A Nvidia tornou-se central porque ocupa o espaço onde hardware, software e ciência de dados convergem. Ela passou a definir o ritmo de evolução de toda a IA generativa, dos modelos fundamentais aos data centers que sustentam os avanços científicos, industriais e culturais desta década.

Se a inteligência artificial é o sistema operacional do mundo contemporâneo, o fato de a Nvidia ocupar o topo do mercado revela quem está ditando as bases dessa nova era.