Tecnologia

Além do VAR: as novas tecnologias da arbitragem na Copa 2026

Sensores, inteligência artificial e análise em tempo real estão tornando as decisões da arbitragem mais rápidas e precisas na Copa de 2026.

03/07/2026

Leonardo Fróes

Desde sua adoção total em competições internacionais, o VAR passou a fazer parte da rotina do futebol e também das conversas entre torcedores. Para muitos, ele tornou o esporte mais justo. Para outros, reduziu a espontaneidade do jogo ao transformar lances decisivos em longas revisões.

Independentemente da opinião, o VAR aproximou o futebol da era dos dados e abriu a porta para novas tecnologias. 

A Copa do Mundo de 2026 iniciou uma nova etapa da arbitragem tecnológica, em que o vídeo é apenas uma das fontes de informação utilizadas pelos árbitros.

Sensores embarcados na bola, rastreamento corporal em tempo real, visão computacional, modelos tridimensionais dos jogadores e sistemas de comunicação mais rápidos formam um ecossistema capaz de reduzir o tempo de análise e aumentar a precisão das decisões.

A proposta é fornecer evidências objetivas para que o árbitro tome decisões com mais rapidez e consistência.

O que é o impedimento semiautomático?

A principal evolução tecnológica da Copa de 2026 está no sistema de Semi-Automated Offside Technology (SAOT), ou tecnologia semiautomatizada de impedimento. A versão utilizada neste Mundial representa uma evolução daquela apresentada na Copa do Catar, em 2022.

Em vez de depender apenas da análise manual das imagens pelo VAR, o sistema combina diferentes fontes de dados em tempo real:

  • câmeras posicionadas ao redor do estádio;

  • rastreamento tridimensional dos jogadores;

  • sensor instalado na bola;

  • algoritmos de visão computacional;

  • inteligência artificial para reconstrução da jogada.

As câmeras acompanham continuamente a movimentação dos atletas e identificam 29 pontos anatômicos de cada jogador, incluindo ombros, joelhos, tornozelos, quadris e outras partes do corpo que podem caracterizar um impedimento. Esses pontos são atualizados dezenas de vezes por segundo, permitindo reconstruir digitalmente a posição exata de cada atleta durante toda a partida. 

O resultado é um sistema muito mais preciso do que a tradicional análise quadro a quadro realizada apenas por vídeo.

A inteligência escondida dentro da bola

Uma das maiores novidades da Copa de 2026 está literalmente dentro da bola. A Trionda, desenvolvida pela Adidas em parceria com a empresa alemã Kinexon, incorpora um sensor de movimento conhecido como IMU (Inertial Measurement Unit).

Esse pequeno dispositivo registra informações aproximadamente 500 vezes por segundo, monitorando aceleração, direção e mudanças de movimento da bola em três dimensões.

A principal função desse sensor é determinar com extrema precisão o chamado kick point: o instante exato em que um jogador toca na bola durante um passe. Esse detalhe é fundamental em lances de impedimento.

No modelo tradicional, o VAR precisava identificar visualmente esse momento a partir de imagens captadas pelas câmeras. Como cada quadro possui um intervalo de tempo entre si, pequenas diferenças podem alterar o posicionamento analisado.

Com a bola conectada, esse instante passa a ser determinado pelos próprios dados do sensor, reduzindo ambiguidades e acelerando as revisões.

A mesma tecnologia também auxilia na confirmação de desvios, toques de mão e outros lances em que identificar o primeiro contato com a bola faz diferença.

Como a FIFA está reduzindo o tempo das revisões

Uma das críticas mais recorrentes ao VAR sempre foi o tempo gasto para revisar determinados lances.

Por isso, boa parte das inovações implementadas pela FIFA não busca apenas aumentar a precisão, mas também reduzir o tempo necessário para chegar a uma decisão.

Na Copa de 2026, a tecnologia de impedimento passou a enviar alertas automáticos ao sistema de comunicação dos árbitros quando identifica situações claras de impedimento. Em muitos casos, o assistente recebe o aviso praticamente em tempo real, sem precisar aguardar toda a análise tradicional do VAR.

Nos lances mais simples, isso elimina etapas intermediárias e diminui significativamente o intervalo entre a jogada e a marcação.

Já nas situações interpretativas (como participação na jogada, interferência em adversários ou possíveis falhas do sistema) a decisão continua dependendo da avaliação humana.

O "gêmeo digital" dos jogadores

Outro avanço pouco percebido pelo público está na criação de modelos digitais extremamente detalhados dos atletas.

Antes da competição, cada jogador passa por um escaneamento tridimensional que gera uma representação virtual com medidas reais do corpo.

Esses modelos permitem que o sistema identifique com maior precisão onde termina o ombro, onde começa o braço ou qual parte do corpo pode participar legalmente de uma jogada.

Além de aumentar a precisão técnica, esses modelos também tornam as animações exibidas nas transmissões mais fiéis ao que realmente aconteceu em campo, facilitando a compreensão das decisões por parte do público.

Na prática, o tradicional desenho genérico utilizado em revisões tende a dar lugar a representações muito mais próximas do atleta real.

A decisão continua sendo humana

Apesar da quantidade crescente de sensores e algoritmos, a FIFA tem reforçado um princípio importante: a tecnologia apoia a arbitragem, mas não substitui o árbitro.

Mesmo quando o sistema identifica automaticamente um impedimento ou recebe informações da bola conectada, existe uma etapa obrigatória de validação. Isso acontece porque nem todas as decisões do futebol são objetivas.

Situações como interferência na visão do goleiro, disputa de bola, intenção em um toque de mão ou participação efetiva em uma jogada continuam exigindo interpretação.

Nesse sentido, a inteligência artificial atua mais como um sistema de apoio à decisão do que como responsável pelo julgamento final.

Enquanto sensores respondem "o que aconteceu", cabe ao árbitro decidir "o que aquele acontecimento significa" dentro das regras do jogo.

Até onde a tecnologia deve ir no futebol?

A Copa do Mundo de 2026 mostra que a arbitragem entrou definitivamente na era dos dados.

O vídeo, que até poucos anos atrás representava a principal ferramenta de apoio ao árbitro, agora faz parte de um conjunto muito maior de tecnologias que inclui sensores, visão computacional, modelos tridimensionais e inteligência artificial.

Ao mesmo tempo, a FIFA parece adotar uma estratégia cautelosa. Em vez de delegar decisões aos algoritmos, a entidade utiliza essas tecnologias para reduzir incertezas, acelerar processos e oferecer mais elementos para a análise humana.

Esse equilíbrio talvez seja o principal desafio da arbitragem nos próximos anos. Quanto mais precisos os sistemas se tornam, maior é a expectativa de que toda decisão seja objetiva. Mas o futebol continua sendo um esporte em que contexto, interpretação e aplicação da regra ainda fazem diferença.

A tecnologia pode medir distâncias de poucos centímetros, identificar o instante exato de um toque na bola e reconstruir digitalmente cada movimento dos jogadores. Ainda assim, a responsabilidade pela decisão permanece com quem está dentro de campo. Talvez esse seja o aspecto mais importante da evolução tecnológica no futebol, não substituir o árbitro, mas oferecer ferramentas para que ele erre menos, sem retirar do jogo a emoção humana que sempre fez parte dele.



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