Empresas

CNI estima que 11,8 milhões de profissionais precisarão se requalificar até 2027

Automação e digitalização estão mudando as competências exigidas pelo mercado, e o desafio não é apenas formar novos profissionais, mas preparar quem está trabalhando.

10/09/2026

Igor Reis

A transformação digital não está apenas criando novas profissões. Ela também está mudando a maneira como atividades conhecidas são executadas e, consequentemente, as competências necessárias para realizá-las. No Brasil, esse movimento já aparece em uma projeção concreta: o Mapa do Trabalho Industrial 2025–2027 aponta a necessidade de qualificar cerca de 14 milhões de profissionais até 2027, sendo 11,8 milhões de trabalhadores que já estão no mercado, mas que também precisarão de subsídios para acompanharem as evoluções tecnológicas. O número não representa 11,8 milhões de empregos que serão eliminados. Ele indica a dimensão do esforço de requalificação profissional necessário para acompanhar mudanças provocadas por novas tecnologias, automação e transformações nos processos de trabalho. E o fenômeno não é exclusivamente brasileiro. O Fórum Econômico Mundial estima que 39% das competências atuais dos trabalhadores deverão mudar ou se tornar obsoletas até 2030, enquanto as habilidades tecnológicas e competências como pensamento analítico, criatividade, resiliência e flexibilidade ganham espaço.

O mercado de trabalho está mudando antes que muitas carreiras percebam

A transformação tecnológica costuma ser percebida quando uma nova ferramenta chega à empresa, mas seu impacto sobre o trabalho é mais amplo. Um software pode modificar processos, automatizar etapas, alterar responsabilidades e fazer com que uma mesma função passe a exigir conhecimentos que não eram necessários há alguns anos.

É justamente por isso que a discussão sobre o futuro do trabalho não deve se limitar à criação ou desaparecimento de profissões. O que está mudando também é o conjunto de habilidades necessário para permanecer relevante dentro de uma profissão.

O Fórum Econômico Mundial aponta a mudança tecnológica como um dos principais vetores da transformação do mercado até 2030, com destaque para digitalização, inteligência artificial, robótica e automação.

Por que 11,8 milhões de trabalhadores precisarão ser requalificados?

O dado do SENAI revela uma característica importante da transformação do mercado brasileiro: boa parte da demanda futura não está relacionada a pessoas que ainda entrarão no mercado, mas a profissionais que já estão trabalhando e precisarão atualizar suas competências.

Isso acontece porque a tecnologia não muda apenas as ferramentas utilizadas pelas empresas. Ela também altera processos, tarefas e responsabilidades. Um profissional administrativo, por exemplo, pode continuar na mesma função, mas precisar dominar novos sistemas, análise de dados e ferramentas digitais. Na área de tecnologia, novas arquiteturas, plataformas e práticas também exigem atualização constante.

A requalificação, portanto, não significa necessariamente trocar de profissão. Muitas vezes, significa aprender novas formas de exercer a mesma função. O profissional mantém sua experiência, mas incorpora as competências que o mercado passa a exigir.

Nesse cenário, aprender deixa de ser uma etapa isolada da carreira e passa a fazer parte dela.

A tecnologia não elimina apenas funções: ela reorganiza tarefas

Automação de tarefas repetitivas

A automação tende a assumir primeiro atividades previsíveis, repetitivas e baseadas em regras. Sistemas podem realizar lançamentos, organizar informações, processar dados ou executar etapas operacionais com menor intervenção humana. Isso não significa, necessariamente, que a função inteira desapareça, mas que uma parte de suas atividades deixa de depender da execução manual.

Ampliação do trabalho humano

Quando uma tecnologia assume tarefas operacionais, o trabalho do profissional pode se deslocar para atividades que exigem interpretação, supervisão e tomada de decisão. Em vez de dedicar tempo à execução de cada etapa, a pessoa passa a acompanhar os resultados produzidos pelos sistemas, identificar problemas, analisar informações e decidir como agir a partir delas.

Novas competências para novas formas de trabalhar

Essa mudança também altera as habilidades necessárias dentro de uma mesma profissão. Não basta apenas saber executar determinado processo: é preciso compreender as ferramentas que passaram a fazer parte dele, interpretar dados, acompanhar sistemas automatizados e entender como a tecnologia influencia os resultados. A requalificação surge justamente dessa mudança, porque a evolução tecnológica transforma não apenas as ferramentas utilizadas no trabalho, mas também a maneira como o profissional precisa utilizá-las.

Por isso, o impacto da automação não deve ser analisado apenas pela quantidade de funções que podem deixar de existir. É preciso observar quais tarefas estão sendo automatizadas, quais responsabilidades estão sendo ampliadas e quais novas competências passam a ser necessárias. É nessa reorganização do trabalho que a transformação tecnológica se torna, na prática, uma questão de requalificação profissional.

Upskilling e reskilling: duas formas de acompanhar a transformação

Upskilling e reskilling aparecem cada vez mais quando o assunto é adaptação profissional, mas representam movimentos diferentes. Upskilling significa ampliar as competências dentro da função que o profissional já exerce, enquanto reskilling envolve desenvolver novas habilidades para assumir outra função ou migrar de área.

Na prática, os dois caminhos podem surgir a partir da mesma transformação tecnológica. Uma empresa pode adotar novas ferramentas e exigir que seus funcionários aprendam a utilizá-las, caracterizando um processo de upskilling. Em outros casos, a mudança pode reduzir determinadas atividades e criar a necessidade de preparar profissionais para novas funções.

Essa diferença mostra que requalificação não significa necessariamente abandonar uma carreira. Muitas vezes, o caminho para continuar relevante é atualizar aquilo que o profissional já sabe fazer, incorporando novas competências às experiências que ele acumulou ao longo da carreira.

As habilidades técnicas ganham espaço, mas não estão sozinhas

O avanço das competências digitais

A transformação tecnológica aumenta a demanda por profissionais capazes de lidar com ferramentas digitais, dados, sistemas automatizados e novas tecnologias. O Fórum Econômico Mundial coloca IA e big data, redes e cibersegurança e letramento tecnológico entre as habilidades que mais devem crescer em importância até 2030.

Habilidades humanas continuam relevantes

A adaptação, porém, não depende apenas do conhecimento técnico. Pensamento analítico, criatividade, flexibilidade e capacidade de aprender continuamente também aparecem entre as competências que ganham relevância nesse cenário.

A combinação que o mercado procura

Isso mostra que o profissional preparado para as próximas mudanças não será necessariamente aquele que domina mais ferramentas, mas quem consegue combinar conhecimento técnico com a capacidade de aprender, resolver problemas e se adaptar conforme as exigências do trabalho evoluem.

A requalificação também virou um desafio para as empresas

A necessidade de requalificar milhões de profissionais não é uma questão que pode ser colocada apenas sobre o trabalhador. À medida que novas tecnologias modificam processos e funções, as próprias empresas precisam encontrar formas de preparar suas equipes para acompanhar essas mudanças. Não basta investir em novas ferramentas se as pessoas responsáveis por utilizá-las não possuem as competências necessárias.

Esse cenário também pode mudar a relação entre contratação e desenvolvimento. Em vez de buscar no mercado um profissional pronto para cada nova necessidade, empresas podem investir na atualização de quem já conhece seus processos, produtos e clientes. O conhecimento acumulado internamente pode ser combinado com novas competências, criando profissionais preparados para funções que sequer existiam da mesma forma alguns anos antes.

O Fórum Econômico Mundial aponta justamente essa dificuldade: 63% dos empregadores consideram as lacunas de habilidades uma das principais barreiras para a transformação dos negócios. Ao mesmo tempo, 85% das empresas consultadas afirmam que pretendem priorizar o desenvolvimento das competências de seus próprios trabalhadores.

Nesse contexto, programas de treinamento, mobilidade interna e aprendizagem contínua deixam de ser apenas iniciativas voltadas ao desenvolvimento individual. Eles passam a fazer parte da estratégia das organizações para acompanhar mudanças tecnológicas sem perder conhecimento e produtividade durante o processo.

Até 2027, a principal vantagem pode ser continuar aprendendo

Os 11,8 milhões de profissionais que, segundo o SENAI, precisarão passar por processos de treinamento e desenvolvimento até 2027 não representam uma previsão de que essas pessoas perderão seus empregos. O número revela algo mais amplo: as competências necessárias para trabalhar estão mudando, e uma parcela significativa de quem já está no mercado precisará acompanhar essa transformação.

A tecnologia continuará alterando processos, ferramentas e funções. Algumas atividades serão automatizadas, outras ganharão novas etapas, e novas profissões surgirão a partir dessas mudanças. Nesse cenário, uma formação concluída no início da carreira pode deixar de ser suficiente para acompanhar todas as transformações que surgirão ao longo dos anos.

Isso não significa que a experiência acumulada perdeu valor. Pelo contrário: conhecimento de negócio, capacidade de resolver problemas e experiência prática continuam sendo diferenciais importantes. A diferença é que esses conhecimentos precisam ser combinados com novas competências. Aprender continuamente passa a ser uma forma de preservar e ampliar o valor da própria experiência.

Para as empresas, o desafio é semelhante. Organizações que investem na atualização de suas equipes conseguem transformar parte da mudança tecnológica em desenvolvimento interno, enquanto aquelas que ignoram as lacunas de conhecimento podem encontrar dificuldades justamente quando novas ferramentas e processos se tornam indispensáveis.

Por isso, a discussão sobre requalificação profissional não deveria começar apenas quando uma tecnologia chega ou quando uma função deixa de existir. O movimento precisa acontecer antes, acompanhando a velocidade com que o mercado muda.

Afinal, o maior risco para uma carreira talvez não seja uma tecnologia substituir o seu trabalho, mas o mercado mudar e você continuar preparado para o trabalho que existia antes.


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