Meio Ambiente

Data centers de SP consomem 16,1 milhões de m³ de água por ano, e quase metade é invisível

Além da água usada para resfriar servidores, parte da pegada hídrica vem da eletricidade gerada por hidrelétricas; entenda o consumo.

24/09/2026

Igor Reis

Quando você salva um arquivo na nuvem, assiste a um vídeo ou faz uma pergunta para uma inteligência artificial, a impressão é de que tudo acontece em um espaço abstrato, distante e quase sem impacto físico. Mas a nuvem tem endereço. Ela depende de prédios repletos de servidores, sistemas de refrigeração, redes de comunicação e enormes quantidades de eletricidade.

E existe um recurso nessa equação que costuma aparecer menos nas discussões sobre o impacto ambiental da tecnologia: a água.

Um estudo publicado pela Cambridge Prisms: Water, da Cambridge University Press, estimou que o cluster de infraestrutura de inteligência artificial da região metropolitana de São Paulo, com uma carga operacional de tecnologia da informação de aproximadamente 550 MW, possui uma pegada hídrica de 16,1 milhões de metros cúbicos por ano. O volume seria equivalente às necessidades de consumo de mais de 100 mil residências.

O dado mais curioso, porém, está em outro lugar: mais de 46% dessa água não é utilizada diretamente dentro dos data centers. Trata-se de uma pegada hídrica indireta relacionada à geração de eletricidade por hidrelétricas.

Isso muda a maneira como devemos olhar para o custo ambiental da computação.

A nuvem precisa de água para funcionar

Por trás de cada servidor existe um problema físico simples: calor. Quanto mais processamento os equipamentos realizam, maior é a quantidade de calor gerada e, em estruturas de alta densidade computacional, como as voltadas à inteligência artificial, manter essa temperatura sob controle é fundamental para preservar o desempenho e a disponibilidade dos sistemas.

É nesse ponto que a água entra na operação. Dependendo da arquitetura utilizada, ela pode participar diretamente do sistema de refrigeração, seja em circuitos que retiram calor dos equipamentos, seja em torres de resfriamento que dissipam esse calor por evaporação. O Lawrence Berkeley National Laboratory destaca que o consumo direto de água dos data centers geralmente está associado às necessidades de refrigeração.

Mas isso não significa que todo data center consuma a mesma quantidade de água. O sistema de refrigeração escolhido faz uma enorme diferença. Tecnologias de resfriamento líquido, sistemas híbridos e soluções que utilizam o ar externo podem alterar significativamente essa demanda. Uma análise do próprio Berkeley Lab encontrou diferenças superiores a 10 mil vezes no uso de água por carga de trabalho, influenciadas por fatores como eficiência dos servidores, tipo de refrigeração, utilização da infraestrutura, clima e características da rede elétrica.

Por isso, quando se fala que a nuvem "consome água", a questão não é apenas quanto de água entra em um data center, mas também como aquela infraestrutura foi projetada para transformar energia em processamento sem deixar que o calor interrompa a operação.

E é justamente quando ampliamos essa conta para além dos muros do data center que surge a parte mais surpreendente da história: a água utilizada para gerar a eletricidade que mantém esses servidores ligados.

São Paulo chega a 16,1 milhões de m³ por ano

É quando essa relação entre computação e água deixa de ser apenas uma questão de engenharia e adquire uma dimensão concreta. Um estudo publicado em abril de 2026 na Cambridge Prisms: Water estimou que o cluster de infraestrutura de inteligência artificial da Região Metropolitana de São Paulo, com uma carga operacional de TI de aproximadamente 550 MW, apresenta uma pegada hídrica anual de 16,1 milhões de m³.

O volume equivale a cerca de 16,1 bilhões de litros de água por ano. Para dar uma dimensão mais fácil de visualizar, os próprios pesquisadores estimam que essa quantidade corresponde às necessidades de mais de 100 mil residências. É importante, porém, fazer uma ressalva: esse número representa pegada hídrica, e não significa que 16,1 bilhões de litros sejam retirados diretamente do sistema de abastecimento de São Paulo. A estimativa reúne tanto o consumo associado à refrigeração dos data centers quanto o consumo indireto relacionado à geração da eletricidade utilizada por eles.

E é justamente essa segunda parcela que torna o número ainda mais interessante: mais de 46% da pegada estimada é indireta, ligada à chamada água virtual da geração hidrelétrica. Ou seja, parte considerável da água associada à operação dessa infraestrutura não está nos servidores, e sim na cadeia de energia que os mantém em funcionamento.

Quase metade da água está "escondida" na eletricidade

A água associada aos data centers não está apenas nos sistemas usados para resfriar os servidores. Uma parcela significativa está na própria eletricidade que mantém essa infraestrutura funcionando. No caso analisado em São Paulo, dos 16,1 milhões de m³ de pegada hídrica estimados para o cluster de IA, 7,45 milhões de m³, ou 46,3%, correspondem ao consumo indireto associado à geração de energia.

Isso acontece principalmente por causa da participação das hidrelétricas na matriz elétrica brasileira. A geração hidrelétrica depende de reservatórios que perdem água por evaporação. Na metodologia do estudo, uma parcela da água evaporada é atribuída à eletricidade consumida pelos data centers, formando o que os pesquisadores chamam de "água virtual". Assim, mesmo que a água não passe fisicamente pelos servidores, ela faz parte da pegada hídrica necessária para manter os equipamentos ligados.

O conceito ajuda a revelar uma conexão que normalmente fica fora da discussão sobre infraestrutura digital: quanto mais computação é necessária, maior é a demanda por eletricidade e, dependendo da fonte dessa energia, maior também pode ser a pressão sobre os recursos hídricos. Em períodos de seca, essa relação fica ainda mais sensível, já que mudanças na participação das hidrelétricas podem alterar a quantidade de água associada à geração de energia.

Ou seja, a água que sustenta a nuvem nem sempre está onde imaginamos. Parte dela está escondida na cadeia que produz a energia necessária para que a nuvem continue funcionando.

O problema não está apenas no data center

Olhar apenas para a água utilizada dentro dos data centers deixa uma parte importante da conta de fora. Em São Paulo, 46,3% da pegada hídrica estimada está relacionada indiretamente à geração da eletricidade utilizada pelo cluster de IA.

Essa água pode estar a quilômetros dos servidores, como no caso da evaporação dos reservatórios de hidrelétricas que ajudam a abastecer o sistema elétrico. E essa relação pode mudar conforme as condições climáticas: no cenário de seca de 2021 analisado pelo estudo, o consumo hídrico indireto para a mesma carga de data centers aumentou 27,2%.

Por isso, avaliar o impacto ambiental da nuvem exige olhar para além da estrutura física dos servidores. A infraestrutura digital está conectada a uma cadeia de água e energia que ultrapassa os limites do próprio data center.

A inteligência artificial está aumentando a escala da infraestrutura

A inteligência artificial não está apenas adicionando novas aplicações à infraestrutura digital existente. Ela está mudando a escala do processamento necessário. Modelos de IA exigem grandes volumes de computação para treinamento e operação, o que impulsiona a expansão de data centers e, principalmente, a instalação de servidores mais potentes e densos. A Agência Internacional de Energia (IEA) aponta que o consumo de eletricidade dos data centers cresceu 17% em 2025, enquanto o dos data centers focados em IA avançou cerca de 50% no mesmo período.

Essa expansão também muda a própria estrutura física dessas instalações. Segundo a IEA, a densidade de potência dos servidores voltados à IA aumentou 11 vezes entre 2020 e 2025 e pode crescer mais quatro vezes até 2027. Mais capacidade concentrada em menos espaço significa também uma necessidade maior de sistemas capazes de retirar o calor produzido por esses equipamentos.

E o crescimento não parece estar próximo da estabilização. A estimativa atual da IEA é que o consumo global de eletricidade dos data centers praticamente dobre, passando de 485 TWh em 2025 para cerca de 950 TWh em 2030, enquanto o consumo dos data centers dedicados à IA deve triplicar neste período.

Para São Paulo, isso é especialmente relevante porque o estudo sobre a pegada hídrica da IA já parte de um cluster estimado em 550 MW de carga operacional de TI na Região Metropolitana. Se a capacidade computacional continuar crescendo, a discussão sobre água deixa de ser apenas uma fotografia do consumo atual e passa a envolver como essa infraestrutura será ampliada e quais recursos serão necessários para sustentá-la.

São Paulo não pode tratar água e energia como problemas separados

Quando um data center aumenta sua demanda por eletricidade, ele não está pressionando apenas o sistema energético. Em uma região, cuja geração depende significativamente da água, essa demanda também pode se transformar em pressão sobre os recursos hídricos. É justamente essa conexão que o estudo sobre São Paulo chama de nexo água-energia.

O problema fica mais evidente em períodos de seca. Na análise do estudo, quando o cenário de 2021 é aplicado, com menor participação hidrelétrica e maior uso de geração termelétrica, o consumo indireto de água associado à mesma carga de data centers sobe para 9,48 milhões de m³, um aumento de 27,2%. Ou seja, a mesma infraestrutura digital pode ter uma pegada hídrica diferente dependendo das condições do sistema elétrico que a abastece.

Há ainda uma questão geográfica. O cluster analisado está concentrado na Região Metropolitana de São Paulo, dentro da bacia do Alto Tietê, uma região que o estudo classifica como de estresse hídrico alto. Isso significa que não basta avaliar quanto uma nova instalação consome: também é necessário considerar onde ela será instalada, de qual sistema elétrico receberá energia e qual é a situação hídrica daquela região.

É por isso que a expansão dos data centers deveria ser planejada de forma integrada. Água, energia e infraestrutura digital fazem parte da mesma equação, e ignorar uma dessas variáveis pode fazer com que uma solução, aparentemente eficiente, transfira o impacto para outro ponto do sistema.

O próximo indicador dos data centers pode ser a água

Durante anos, a eficiência dos data centers foi medida principalmente pelo consumo de energia. Agora, a água começa a ganhar espaço nessa discussão. O WUE (Water Usage Effectiveness), padronizado pela ISO/IEC 30134-9:2022, já permite medir a eficiência hídrica dessas instalações.

Com o avanço da IA e o aumento da demanda por processamento e refrigeração, esse indicador tende a ganhar ainda mais importância. Para São Paulo, isso significa olhar não apenas para quanta energia um data center consome, mas também para quanta água é necessária para mantê-lo funcionando.

A nuvem pode parecer invisível, mas seus recursos não são. À medida que a inteligência artificial amplia a demanda por processamento, entender o custo hídrico da tecnologia será tão importante quanto medir seu consumo de energia. Afinal, o futuro digital também depende de recursos que não são digitais.


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