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O Product Engineer é o novo CTO? Por que esse cargo não precisa de um DevOps dedicado

Como a IA, as plataformas cloud e a automação estão mudando a estrutura das equipes de engenharia

18/08/2026

Leonardo Fróes

Durante muitos anos, a evolução das equipes de tecnologia caminhou em direção à especialização. Havia um profissional para escrever código, outro para definir requisitos, um responsável pela infraestrutura, outro pela operação e, acima deles, um CTO concentrando as principais decisões técnicas da empresa.

Esse modelo continua funcionando em muitas organizações, especialmente nas de grande porte. Mas o avanço da inteligência artificial, da computação em nuvem e das plataformas de desenvolvimento está acelerando uma mudança importante: profissionais que antes atuavam apenas na implementação passaram a participar diretamente das decisões de produto, arquitetura e negócio.

É nesse contexto que o Product Engineer ganha espaço. O CTO não vai desaparecer, tampouco o DevOps deixou de ser importante. O que está mudando é a distribuição de responsabilidades dentro das equipes. Parte das decisões, que antes dependiam exclusivamente da liderança técnica, hoje pode ser tomada por engenheiros com forte conhecimento de produto, apoiados por ferramentas cada vez mais inteligentes e por uma infraestrutura amplamente automatizada.

Especialização e contexto de produto

Durante décadas, a engenharia de software foi organizada em camadas bem definidas:

O Product Manager entendia o problema do cliente.

O UX Designer desenhava a experiência.

O desenvolvedor implementava a solução.

O DevOps cuidava da infraestrutura.

O CTO definia arquitetura, padrões e estratégia tecnológica.

Essa divisão fazia sentido quando cada camada exigia conhecimentos muito específicos, e a comunicação entre áreas representava um custo menor do que distribuir responsabilidades.

Hoje esse cenário mudou. Ferramentas de IA conseguem gerar protótipos, revisar código, sugerir arquiteturas e automatizar tarefas repetitivas. Ao mesmo tempo, plataformas cloud abstraem boa parte da complexidade operacional que antes exigia equipes dedicadas apenas para manter aplicações funcionando.

Como consequência, cresce a expectativa de que engenheiros entendam não apenas como construir, mas por que construir.

Segundo um artigo publicado pela CIO, empresas orientadas por IA vêm observando ganhos relevantes ao aproximar engenharia e produto, reduzindo o número de decisões intermediárias e aumentando a autonomia das equipes. No texto, o CTO da plataforma de IA empresarial akirolabs descreve essa evolução como a transição do engenheiro especialista para um profissional profundamente conectado ao contexto do negócio. A experiência relatada mostrou reduções entre 15% e 25% no tempo de desenvolvimento após a adoção desse modelo, chegando a ciclos até 45% mais rápidos quando combinado com ferramentas modernas de IA.

Embora esses números sejam resultados internos da empresa (e não um estudo científico), eles ilustram uma tendência observada em boa parte do mercado: a velocidade deixou de depender apenas da qualidade do código e passou a depender da qualidade das decisões.

O que define um Product Engineer?

Apesar da crescente popularidade do termo, ainda não existe uma definição única para Product Engineer. Empresas como Vercel, Linear, Notion e diversas startups do Vale do Silício utilizam conceitos semelhantes para descrever profissionais que unem três competências tradicionalmente separadas:

  • desenvolvimento de software;

  • visão de produto;

  • capacidade de tomar decisões técnicas de forma autônoma.

Na prática, o Product Engineer continua sendo um engenheiro de software. A diferença está no escopo de atuação.

Em vez de simplesmente receber tarefas, esse profissional participa das discussões que definem prioridades, entende métricas de negócio, avalia impacto para o usuário e frequentemente influencia decisões arquiteturais que antes dependeriam exclusivamente de profissionais mais seniores.

Isso muda completamente a dinâmica da equipe. Ao compreender o problema de negócio, o engenheiro deixa de ser apenas executor e passa a ser corresponsável pelo resultado do produto.

Essa autonomia também reduz um dos maiores gargalos do desenvolvimento moderno: o excesso de repasses entre áreas. Quanto menos uma decisão precisa percorrer diferentes equipes, menor tende a ser o tempo entre a ideia e a entrega.

A culpa é da IA?

É comum associar o surgimento do Product Engineer ao avanço da inteligência artificial. Na realidade, a IA não criou esse movimento. Ela acelerou algo que já vinha acontecendo.

Modelos generativos passaram a executar atividades que consumiam parte significativa da rotina de engenharia:

  • geração de código;

  • documentação;

  • testes automatizados;

  • refatoração;

  • análise de logs;

  • explicação de arquiteturas existentes;

  • criação de protótipos.

Com menos tempo gasto em tarefas operacionais, cresce o espaço para decisões que exigem entendimento de produto.

Ao mesmo tempo, ferramentas como GitHub Copilot, Claude Code, Cursor e outros assistentes de desenvolvimento reduziram o custo cognitivo da implementação, permitindo que engenheiros concentrem energia na solução do problema, e não apenas na escrita do código.

Isso também muda o papel da liderança técnica. O CTO passa a dedicar menos tempo à resolução de dúvidas operacionais e mais à definição de estratégia tecnológica, governança, segurança, arquitetura e direcionamento da organização.

Se o Product Engineer cresce, o DevOps perde espaço?

O que está mudando não é a importância da cultura DevOps, mas a necessidade de manter um especialista dedicado para executar tarefas que hoje podem ser automatizadas por plataformas modernas.

Há alguns anos, criar uma infraestrutura exigia configurar servidores manualmente, instalar serviços, preparar pipelines de deploy e administrar praticamente toda a operação da aplicação. Hoje, grande parte desse trabalho pode ser abstraída por ferramentas como Terraform, GitHub Actions, Kubernetes gerenciado e pelos diversos serviços oferecidos por provedores como AWS, Azure e Google Cloud.

Além disso, ganha força um conceito que vem sendo tratado como a evolução natural do DevOps: o Platform Engineering.

Em vez de cada squad depender constantemente de especialistas em infraestrutura, equipes de plataforma constroem ambientes padronizados, reutilizáveis e seguros, permitindo que desenvolvedores trabalhem com muito mais autonomia sem abrir mão da governança.

Nesse cenário, o Product Engineer não substitui o DevOps. Ele passa a consumir uma plataforma pronta. É uma mudança semelhante ao que aconteceu com bancos de dados gerenciados. Poucas empresas deixaram de usar bancos de dados, elas apenas deixaram de administrar manualmente toda a infraestrutura necessária para mantê-los funcionando. A mesma lógica começa a aparecer na engenharia de software como um todo.

O que as empresas ganham com esse novo perfil?

A ascensão do Product Engineer responde a um desafio concreto: como aumentar a velocidade sem aumentar proporcionalmente o tamanho das equipes.

Quando um engenheiro entende o contexto do produto e possui autonomia para navegar por diferentes camadas técnicas, alguns ganhos tendem a aparecer naturalmente:

  • menos repasses entre equipes;

  • redução de gargalos de comunicação;

  • ciclos menores entre ideia e entrega;

  • maior senso de responsabilidade sobre o resultado final;

  • menor dependência de especialistas para tarefas rotineiras.

Áreas de infraestrutura, por sua vez, passam a atuar de maneira mais estratégica, desenvolvendo plataformas reutilizáveis em vez de executar demandas pontuais de cada projeto. No fim, a organização inteira ganha capacidade de escalar.

Um novo tipo de infraestrutura para um novo tipo de equipe

A autonomia que essas mudanças trazem não depende apenas de profissionais mais versáteis. Ela também exige uma infraestrutura capaz de eliminar atritos entre a ideia e a entrega.

É por isso que cresce o número de plataformas desenvolvidas para abstrair parte da complexidade operacional do desenvolvimento, oferecendo ambientes padronizados, pipelines automatizados e boas práticas de engenharia desde o início do projeto.

Um exemplo é o CodeCell. Além de terceirizar os melhores profissionais, esse serviço fornece uma base tecnológica de ponta para novos produtos digitais, permitindo que as equipes concentrem esforços na construção de funcionalidades, considerando aspectos como arquitetura cloud, infraestrutura e automação. A proposta não é substituir especialistas em infraestrutura, mas permitir que eles atuem de forma mais estratégica, enquanto Product Engineers trabalham com mais autonomia sobre uma fundação técnica consistente.

O que será daqui para frente

O crescimento do Product Engineer mostra que a evolução da engenharia de software passa menos pela criação de novos cargos e mais pela redistribuição de responsabilidades.

À medida que plataformas, inteligência artificial e automação assumem parte da complexidade operacional, profissionais de tecnologia ganham espaço para participar de decisões que conectam código, produto e negócio.

O desafio das empresas deixa de ser apenas contratar especialistas e passa a ser construir ambientes que permitam que esses profissionais tenham autonomia para entregar mais, com segurança e contexto.



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