Segurança da Informação

Scam Alert: como o WhatsApp vai detectar golpes sem quebrar a criptografia

A Meta começou a testar seu novo recurso contra golpes digitais e o CodeBlog reuniu tudo o que você precisa saber sobre ele

21/08/2026

Brenda Pimentel

Presente em 99% dos smartphones ativos no Brasil, o WhatsApp é o aplicativo número um entre os brasileiros. Mas essa preferência nacional também se estende a um público indesejado: os golpistas. Segundo o relatório O Estado dos Golpes no Brasil, da Global Anti-Scam Alliance (GASA), divulgado em 7 de agosto deste ano, o país registrou cerca de 34 bilhões de tentativas de golpes digitais entre março de 2025 e fevereiro de 2026. Desse montante, 16,5 milhões de brasileiros perderam dinheiro, somando R$ 21,2 bilhões em prejuízos (uma média de R$ 1.287,00 por pessoa). E o WhatsApp lidera, com folga, os canais usados para golpes, com 64% das vítimas afirmando terem sido contatadas através do aplicativo. 

Ciente do problema, o WhatsApp tem investido cada vez mais em segurança e o foco do momento é o Scam Alert, um recurso opcional que usa um modelo de aprendizado de máquina rodando no próprio celular para identificar possíveis mensagens de golpe, sem que o conteúdo da conversa saia do aparelho.

Anunciado em 12 de agosto de 2026 pelo Meta Engineering, o recurso é uma prévia, está em versão beta, mas já tem despertado a curiosidade de usuários, empresas e profissionais de tecnologia. Se você é um deles, fique neste artigo, pois vamos explicar o que é, como funciona, qual é a previsão de chegada no Brasil e muito mais.

O que é o Scam Alert, exatamente?

O Scam Alert é um aviso que aparece no próprio chat quando o WhatsApp identifica que uma mensagem possui características de golpe. A identificação dessas fraudes ocorre, principalmente, com base na estrutura da conversa e em padrões de linguagem já denunciados por outros usuários. O aviso é visível apenas para quem recebe a mensagem; a outra pessoa não sabe que a sinalização ocorreu.

A partir do alerta, quem recebeu a mensagem pode decidir o que fazer:

  • Bloquear o contato;

  • Denunciar a conversa ao WhatsApp;

  • Marcar como confiável, removendo o aviso. Nesse caso, o app não volta a sinalizar aquele chat.

Há ainda uma opção extra: se o usuário marcar um chat como confiável, ou seja, indicar que o alerta errou, ele pode optar por compartilhar as últimas 5 mensagens recebidas com o WhatsApp, para ajudar a treinar e corrigir o modelo. 

Por ora, o recurso está em teste limitado na versão beta, com uma visão geral técnica publicada para a comunidade de segurança e inserida no programa de bug bounty da Meta, que vai tentar quebrar o sistema sob condições extremas antes de um lançamento mais amplo.

Como a Meta resolve o paradoxo da criptografia

O desafio de projetar o Scam Alert é praticamente um paradoxo: como alertar sobre o conteúdo de uma mensagem sem violar a promessa da criptografia de ponta a ponta do WhatsApp, que garante que nem a própria Meta consegue ler as conversas?

A resposta técnica da empresa foi tirar o servidor da equação. Em vez de mandar a mensagem para a nuvem, o modelo opera no smartphone do usuário, aproveitando avanços recentes em hardware móvel que tornam viável aplicar pequenos modelos de IA sem consumir bateria ou processamento. De acordo com a Meta, o design do Scam Alert segue três princípios para garantir a criptografia ponta a ponta:

1- Opera somente no dispositivo — o modelo e os dados que ele processa nunca saem do celular do usuário para classificação.

2- Sem denúncia automática — a Meta não pode iniciar o compartilhamento de dados por conta própria. A única forma de uma mensagem (ou até a própria detecção de golpe) chegar aos servidores da empresa é o usuário optar ativamente por denunciar, do mesmo jeito que funciona hoje o botão de denúncia no WhatsApp.

3- Controle na mão do usuário — o recurso pode ser ativado ou desativado a qualquer momento, e cada alerta pode ser corrigido pelo próprio usuário.

As garantias técnicas e por que elas são verificáveis

O ponto mais interessante do anúncio, do ponto de vista técnico, é que a Meta não está pedindo para o público simplesmente confiar. A empresa descreve três salvaguardas que, segundo ela, podem ser auditadas de forma independente:

A primeira delas é a telemetria com preservação de privacidade. Os únicos dados que saem do celular são métricas agregadas e anônimas processadas dentro de ambientes de execução confiáveis (TEEs, via máquinas virtuais confidenciais) e protegidas por privacidade diferencial antes de chegarem à Meta.

A segunda é que nem a Meta nem o WhatsApp conseguem mandar uma versão específica do modelo para um usuário específico. Toda versão, inclusive as experimentais, é publicada antes em um registro público de transparência (um ledger append-only mantido por terceiros), dificultando um cenário em que o modelo seria usado para vigiar alguém em particular.

A terceira é que os comportamentos do modelo são publicados com transparência para que pesquisadores de segurança independentes possam checar se ele foi treinado apenas para detectar golpes e não para outra coisa.

Na prática, isso é uma resposta direta a uma crítica recorrente sobre qualquer sistema de moderação por IA: o medo de que ele seja, na verdade, uma brecha para a vigilância. A publicação da arquitetura foi feita justamente para dar ainda mais credibilidade ao posicionamento da empresa. 

O Scam Alert resolve os golpes mais comuns no WhatsApp?

Vale lembrar que o Scam Alert é treinado para reconhecer padrões de conversas fraudulentas já denunciadas, ou seja, ele tende a ser mais eficaz contra os golpes clássicos e recorrentes do que contra ameaças totalmente novas. Como mostramos em nosso levantamento sobre a tecnologia por trás dos golpes mais comuns no WhatsApp, boa parte das fraudes que circulam no app (falso suporte técnico, clonagem de conta, falso parente em apuros, golpe do Pix) segue roteiros de engenharia social bem parecidos entre si, exatamente o tipo de padrão que um classificador local consegue aprender a reconhecer com o tempo.

Isso não faz do Scam Alert uma solução definitiva. Golpes com iscas geradas por IA, mencionados no próprio anúncio da Meta como parte da evolução das táticas que motivaram o recurso, tendem a variar mais a cada tentativa, o que é justamente o tipo de ameaça mais difícil para um modelo de classificação de padrões. O recurso está mais para uma camada extra de proteção do que um substituto para o cuidado básico ao conversar com desconhecidos.

O que fazer se o alerta aparecer no seu WhatsApp

Quando (e se) o Scam Alert chegar à sua conta, vale seguir uma lógica simples:

Se a mensagem realmente parecer suspeita (desconhecido pedindo dinheiro, dados bancários ou códigos de verificação), bloqueie e denuncie. Se for um alerta equivocado, emitido porque um contato legítimo ainda não está na sua lista, marque como confiável para não ser incomodado de novo.

Se quiser guardar a conversa como prova para a polícia ou para o banco, atente-se à forma como encaminha o print ou a mensagem. Dependendo do conteúdo e do contexto, reencaminhar mensagens tem implicações legais próprias, como explicamos no artigo “Afinal, encaminhar mensagens do WhatsApp é crime?”.

Quando o Scam Alert chega ao Brasil

Por enquanto, a Meta fala em lançamento limitado na versão beta e segue testando com a comunidade de bug bounty antes de expandir para todos os usuários. Não há, até a publicação deste texto, uma data de disponibilidade geral confirmada — e o histórico de recursos de segurança do WhatsApp sugere uma implantação gradual, por região e por versão do app. Vamos atualizar este artigo conforme a Meta divulgar novidades.

Enquanto esse momento não chega, preparamos uma pequena seção de perguntas e respostas sobre o Scam Alert do WhatsApp.

O que é o Scam Alert do WhatsApp?
É um recurso opcional que usa um modelo de IA rodando no próprio celular para identificar possíveis mensagens de golpe vindas de contatos desconhecidos, sem enviar o conteúdo das mensagens para os servidores do WhatsApp ou da Meta.

O Scam Alert lê minhas mensagens?
O modelo processa o texto localmente, no seu aparelho, para classificar o risco de golpe, mas o conteúdo da mensagem não é enviado para a Meta, o WhatsApp ou qualquer outro serviço, mantendo a criptografia de ponta a ponta intacta.

O Scam Alert denuncia automaticamente quem me manda uma mensagem suspeita? 
Não. Nenhuma denúncia é feita automaticamente. Só se o próprio usuário optar por denunciar a conversa é que ela é enviada ao WhatsApp, do mesmo jeito que já acontece hoje com o botão de denúncia.

Como faço para ativar (ou desativar) o Scam Alert? 
O recurso é opcional e, segundo a Meta, pode ser ativado ou desativado a qualquer momento nas configurações do app. Como ainda está em teste, pode ser que ele não esteja disponível para todas as contas.

O Scam Alert já está disponível no Brasil?
Até a publicação deste artigo, o recurso está em fase de teste beta limitado, sem data confirmada de lançamento geral no Brasil.



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